Uma mulher surge a correr na cidade deserta.
Vinda não se sabe bem de onde
Corre. Sem parar.
O ar gélido não a impede de continuar.

Corre, corre sempre.
Não conhece o destino,
A única coisa que sabe é que não pode parar.
Não pode parar de correr.
Correr é a única certeza.
Corre, corre sempre.
A cidade está deserta, ninguém a vê.
Não vê ninguém.
Ninguém.
Continua a correr,
Freneticamente.
Tem a urgência a pulsar-lhe nas veias.
Entra na ponte.
Para de súbito.
Ultrapassa a barreira.
Não se atira,
Deixa-se cair.
Cai vertiginosamente em direção ao nada.
A queda é a única coisa que a impede de correr.
Cai
Sem nunca atingir o rio,
Sem nunca atingir o chão.
O vento empurra-a para cima.
A mulher recusa o vento.
Continua a cair.
Vai cedendo à gravidade
Mas contraria a velocidade.
Vive numa luta entre a sustentação e a queda.

A mulher está sentada no sofá.
Imóvel.
Nunca saiu dali.

As paredes empurram-na,
Vão estreitando o espaço.

A mulher continua a correr sem mexer um músculo.
Consegue ver a ondas sonoras dos gritos à sua volta,
Mas deixou de ouvir.
Deixou de sentir.
A combustão interna deu lugar à imobilidade.
 

A cidade não está deserta.
Nunca esteve.
A mulher continua a correr
Mas ninguém a vê.

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Quase pronto…

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